NEWSLETTER DRA. CAPI
📅 Semana de referência: 21/06/2026
🎯 Tema da semana: Cuidados Paliativos no departamento de emergência
☐ Caso clínico da semana
O sábado de manhã no pronto atendimento do hospital universitário tinha aquele silêncio inquietante de dia de jogo do Brasil, quebrado apenas pelo som distante da TV na sala de espera e pelo bip rítmico dos monitores. Eu e meu R1 estávamos na expectativa de um plantão calmo, mas a porta da emergência se escancarou com a chegada da Dona Júlia, uma senhora de 86 anos trazida às pressas pela família. O cenário era o pesadelo de qualquer médico jovem: uma insuficiência respiratória franca, com uso de musculatura acessória, fala entrecortada e uma saturação que teimava em não subir de 86% mesmo no oxigênio. O residente, com o vigor típico de quem quer salvar o mundo, já estava com o laringoscópio na mão, prescrevendo etomidato e avisando a equipe para preparar o material de intubação. Ele via um pulmão falhando; eu via uma mulher em sua trajetória final de falência de órgãos.
Dona Júlia era portadora de DPOC terminal, já usava oxigênio domiciliar e seu estado funcional era precário, com uma Palliative Performance Scale (PPS) visivelmente abaixo de 30%, totalmente restrita ao leito e dependente para tudo. Antes que o tubo passasse pelas cordas vocais — um procedimento que, para ela, seria futilidade terapêutica e apenas medicalizaria sua morte — eu intervim. O erro mais comum aqui é acreditar que "fazer tudo" significa usar toda a tecnologia disponível, quando, na verdade, para um paciente terminal, o suporte ventilatório invasivo muitas vezes apenas prolonga o sofrimento. Coloquei a mão no ombro do residente e disse que nossa missão ali não era entubar, mas sim definir a melhor conduta para o conforto dela, mudando o foco da cura para a dignidade.
Chamamos a filha para o REMAP, nossa bússola de comunicação. Comecei reenquadrando a situação: "Estou muito preocupado, pois o pulmão da sua mãe chegou a um limite de fragilidade que não conseguimos mais reverter". Acolhi a emoção e o choro que vieram em seguida, usando o mnemônico NURSE para validar aquele momento de dor. Então, passamos a mapear os valores: "O que seria mais importante para a Dona Júlia se ela pudesse nos dizer agora?". A filha, entre lágrimas, admitiu que a mãe sempre disse que não queria viver presa a máquinas. Alinhamos nossos objetivos: o foco seria o conforto absoluto. Por fim, propus o plano: em vez do ventilador mecânico, usaríamos a morfina, que é o padrão-ouro para aliviar a "fome de ar" e a angústia respiratória.
No pronto atendimento, a conduta correta foi a tomada de decisão compartilhada, evitando intervenções agressivas em uma trajetória de declínio previsível. Dona Júlia não precisava de um tubo; ela precisava de 2 mg de morfina endovenosa para que sua respiração se acalmasse e ela pudesse estar com os seus. O emergencista que domina os cuidados paliativos entende que o prognóstico deve guiar a terapia, e a "pergunta surpresa" — "eu ficaria surpreso se ela morresse nesta internação?" — nos deu a resposta que o residente ainda não tinha. No fim, o sofrimento cedeu e a dignidade prevaleceu em meio ao caos da emergência.
☐ Conduta da semana
Cuidados Paliativos no DE — Reconhecendo o Fim da Jornada
O papel do médico emergencista vai além da ressuscitação; ele exige a habilidade de reconhecer quando o foco do cuidado deve migrar da cura para a preservação da dignidade. Para isso, não basta intuição; é preciso dominar as ferramentas que mapeiam o declínio e sinalizam que a morte está próxima.


1. O Mapa: As Trajetórias de Declínio
Nem toda morte no Departamento de Emergência (DE) é súbita. Na verdade, eventos como paradas cardíacas ou traumas representam apenas 15% dos casos. A maioria dos pacientes segue três outros padrões de declínio no último ano de vida:
Câncer
O paciente mantém funcionalidade por um período longo, mas apresenta uma queda brusca e previsível quando a morte se aproxima.
Falência de Órgãos (como DPOC ou IC)
Uma "montanha-russa" de exacerbações graves seguidas de recuperações parciais, mas com uma base funcional cada vez mais baixa.
Fragilidade e Demência
Um declínio funcional lento e prolongado, muitas vezes difícil de ser percebido pelos cuidadores, mas que culmina em complicações fatais como infecções graves.
2. O Gatilho Inicial: A Pergunta Surpresa (SQ)
A pergunta "Eu ficaria surpreso se este paciente morresse em um ano?" é o primeiro filtro.
  • Desempenho no DE: Em pacientes com câncer avançado, a SQ possui uma alta sensibilidade (89%), o que significa que ela é excelente para captar a maioria dos pacientes em risco.
  • Limitação: Isoladamente, ela é pouco específica (40%), pois pacientes graves podem sofrer deteriorações temporárias que são reversíveis com tratamento agudo.
3. O "Combo de Ouro": SQ + Status Funcional (ECOG)
A precisão muda drasticamente quando aliamos a SQ ao status funcional do paciente, como o ECOG (ou o correspondente PPS).
  • O Marcador de Risco: Quando o médico responde "Não estou surpreso" (NS) E o paciente tem um ECOG 3-4 (passa >50% do dia no leito ou totalmente dependente), a especificidade sobe para 92% e o valor preditivo positivo para 95% para óbito em um ano.
  • Dica Prática: A presença de baixo status funcional fixa o "Não Surpreso" como um marcador fidedigno de terminalidade.
4. Estratificando a Urgência (As 3 Camadas de Cuidado)
Os dados mostram que podemos dividir os pacientes no DE em três grupos de urgência paliativa baseados na sobrevida mediana:
🟢 Grupo Verde (Urgência Baixa)
Médicos que respondem "Sim, ficaria surpreso" (S). A sobrevida mediana é de 9 meses. Aqui, adota-se a "abordagem de duas vias": tratamento modificador da doença em paralelo com conversas precoces sobre metas de cuidado.
🟡 Grupo Amarelo (Urgência Moderada)
Resposta "Não Surpreso" (NS) com bom status funcional (ECOG 0-2). A sobrevida mediana é de 6 meses. O foco deve ser o manejo agressivo de sintomas e a melhoria da qualidade de vida.
🔴 Grupo Vermelho (Urgência Imediata)
Resposta "Não Surpreso" (NS) com ECOG 3-4 (ou PPS ≤ 30%). A sobrevida mediana é de apenas 1 mês. Estes pacientes estão na fase final de vida; o planejamento de fim de vida conforme os desejos do paciente deve ser prioridade máxima no DE.
5. Ferramentas de Prateleira: SPICT e PPS
Para objetivar a conduta, utilizamos escalas validadas:
  • SPICT (Supportive and Palliative Care Indicators Tool): Avalia indicadores de deterioração clínica como internações não planejadas recorrentes, permanência no leito por mais de metade do dia, perda de peso progressiva (caquexia) e sintomas refratários ao tratamento otimizado.
  • PPS (Palliative Performance Scale): Foca na funcionalidade, ingesta oral e consciência. Um PPS < 50% em doenças terminais sugere uma sobrevida de apenas semanas. O sinal definitivo é o PPS ≤ 20% associado à queda do sulco nasolabial, que indica uma mortalidade de 94% em apenas 3 dias.
6. Guia Rápido de Manejo de Sintomas
Quando a morte é iminente, o tratamento foca no alívio imediato do sofrimento:
  • Dor e Dispneia: O fármaco de escolha é a Morfina. Em pacientes sem uso prévio de opioides, a dose inicial recomendada é de 2 mg a 2,5 mg (SC ou IV) ou 5 mg (VO) a cada 2 ou 4 horas. Para dispneia severa, pode-se repetir a dose a cada 30-60 minutos até o controle.
  • Secreções Orais (Estertor Terminal): A respiração ruidosa pode ser angustiante para a família. Use atropina sublingual a 0,5% (2 gotas até 3x ao dia) ou escopolamina para inibir a produção salivar.
  • Náuseas e Delirium: Priorize o controle sintomático sobre o diagnóstico etiológico se isso for garantir conforto rápido.
☐ Erro comum da semana
Erros da Semana: O que não fazer no Cuidado Paliativo da Emergência
No calor do plantão, a pressa e o treinamento focado em "salvar a qualquer custo" podem nos levar a equívocos automáticos. O problema é que, em cuidados paliativos (CP), um erro técnico ou de comunicação pode custar a dignidade do paciente e aumentar o sofrimento da família. Aqui estão os principais erros que você deve riscar da sua prática:
1. A Armadilha do "Você quer que façamos tudo?"
O erro: Perguntar à família se "querem que façamos tudo" ou se "querem que ele seja ressuscitado".
Por que é errado: Primeiro, a pergunta implica que as manobras teriam sucesso, o que raramente ocorre no fim da vida. Segundo, delega uma carga de culpa insuportável à família, como se eles estivessem escolhendo "deixar morrer".
A correção: Use o REMAP. Mapeie os valores e proponha um plano médico baseado neles. O médico deve recomendar, não apenas oferecer um menu de procedimentos.
2. Opiofobia e Subdosagem
O erro: Tratar a dor ou a dispneia terminal com doses homeopáticas de morfina por medo de efeitos colaterais.
A correção: A preocupação com a "sedação excessiva" é, na maioria das vezes, infundada. A subdosagem deixa o paciente em agonia desnecessária. Use protocolos de titulação rápida (dobrar a dose se necessário até o controle) e lembre-se: a morfina é o padrão-ouro para a "fome de ar", mesmo sem hipóxia.
3. Distração Diagnóstica vs. Foco no Conforto
O erro: Perder tempo precioso tentando diagnosticar a causa exata da dispneia (é tromboembolismo? é pneumonia? é efusão?) em um paciente claramente em fase ativa de morte.
A correção: No fim da vida, tratar o sintoma é mais importante do que o diagnóstico subjacente. Se o paciente está morrendo e está com falta de ar, o diagnóstico é "dispneia terminal" e o tratamento é conforto imediato.
4. Confundir Sedação Paliativa com Eutanásia
O erro: Hesitar em iniciar a sedação paliativa por medo ético ou legal de estar praticando eutanásia.
A correção: A eutanásia visa a morte. A sedação paliativa visa o alívio de um sintoma refratário (dor, dispneia ou delirium hiperativo) que não responde a outras medidas. É uma prática ética e legal de preservação da dignidade.
5. A "Falsa Necessidade" de Hidratação e Nutrição Artificial
Um erro frequente é acreditar que a oferta de soro ou sondas de alimentação traz conforto ao paciente na fase ativa de morte. Na realidade, não há evidências de que a hidratação artificial prolongue a vida ou melhore o bem-estar nesse estágio. Pelo contrário, pode causar desconforto e náuseas, devendo-se priorizar a oferta de alimentos de preferência do paciente apenas para prazer e qualidade de vida.
6. A Obsessão pelos Sinais Vitais no Fim da Vida
No DE, o hábito de monitorar a pressão arterial, frequência cardíaca e saturação é quase automático. No entanto, em pacientes terminais na fase ativa de morte, a monitorização constante é desnecessária, pois o foco exclusivo deve ser o conforto. O ruído dos alarmes e a fixação nos números podem aumentar a ansiedade da família e desviar a atenção do alívio dos sintomas.
☐ Ferramenta da semana
Ferramenta da Semana: O Protocolo REMAP
No turbilhão do Departamento de Emergência (DE), a diferença entre uma conduta heroica e uma intervenção fútil que gera sofrimento desnecessário reside em uma única habilidade: a comunicação. O REMAP (Reframe, Expect emotion, Map out, Align, Propose) é o "mapa" sistemático e estruturado que o emergencista deve seguir para conduzir conversas sobre metas de cuidado, garantindo que nossas decisões reflitam os valores reais do paciente e não apenas o pânico do momento.
Por que, Onde e Quando Aplicar? A aplicação do REMAP no DE é fundamental porque muitas decisões tomadas na pressa, como intubação e RCP, são movidas por desinformação ou emoções intensas, em vez de escolhas ponderadas. O momento ideal para aplicá-lo é assim que identificamos um paciente com doença grave ou terminal, preferencialmente antes que intervenções invasivas sejam necessárias. O gatilho prático é o estudo da "Pergunta Surpresa": se você não ficaria surpreso com o óbito do paciente, é hora de abrir o mapa do REMAP.
As 5 Etapas e as Frases de Ouro
R - Reframe (Reenquadrar a Situação)
O objetivo aqui é alinhar a percepção da família com a gravidade clínica. Antes de avançar, sonde o terreno: "O que os médicos te disseram sobre a condição dela até agora?". Se houver uma lacuna entre a esperança e a realidade, use a frase: "Eu também espero que ela melhore, mas dado o quão doente ela está, vamos esperar pelo melhor e planejar para o pior?". A "manchete" deve ser clara e sem jargões: "Estou preocupado que estejamos em um lugar diferente agora" ou "Estou preocupado que ela esteja morrendo".
E - Expect Emotion (Esperar e Acolher Emoções)
As respostas emocionais costumam vir antes das cognitivas e precisam ser tratadas para que a família consiga processar informações. Use o mnemônico NURSE para demonstrar empatia prática. Nomeie a emoção: "Parece que vocês estão em choque"; ou explore o sentimento: "Ouvi você dizer que não acredita no que o oncologista disse. Conte-me mais sobre isso".
M - Map Out (Mapear Objetivos e Valores)
Aqui, saímos do tecnicismo e entramos na biografia do paciente. Pergunte: "O que a sua mãe nos diria que é mais importante para ela agora?" ou "Quando você pensa no futuro, o que você espera?". O foco é descobrir o que o paciente valoriza em termos de qualidade de vida e autonomia.
A - Align (Alinhar-se com o Paciente)
Demonstre que você ouviu e que está no "mesmo time" que eles. Use frases de confirmação: "Estou ouvindo que o que é mais importante para vocês agora é o conforto dela e que ela não sinta dor". Isso cria o respaldo necessário para a proposta final.
P - Propose (Propor um Plano)
Com base no que foi mapeado, você agora recomenda a conduta médica. Comece pelo quadro geral: "Baseado no que ouvi, acho que devemos focar todos os nossos esforços em maximizar o conforto dela e apoiá-la em um processo de morte natural". Seja explícito sobre a reanimação: "Quando o coração dela parar, não recomendo que intervenhamos com máquinas. Em vez disso, focaremos em permitir uma morte natural". Jamais pergunte "quer que façamos tudo?", pois isso sugere um sucesso improvável e transfere o peso da culpa para a família.
☐ Mensagem final da semana
Quando eu era estudante, achava que a Medicina de Emergência era uma luta permanente contra a morte. Achava que nosso trabalho era vencer. Intubar mais rápido. Reanimar melhor. Fazer procedimentos mais difíceis. Salvar mais vidas. Com o tempo, percebi que essa visão estava incompleta.
O emergencista não trava uma guerra contra a morte. Ele trava uma guerra contra aquilo que pode ser revertido. Contra a hipóxia que rouba o cérebro de um paciente jovem. Contra a hipercalemia que ameaça parar um coração. Contra o choque séptico que transforma horas em minutos. Contra a hemorragia que insiste em levar alguém antes do tempo. Nós não lutamos contra a finitude humana. Lutamos contra as causas reversíveis do sofrimento e da morte prematura.
Talvez seja isso que torne a nossa especialidade tão fascinante. Somos os médicos da integração. Enquanto muitos enxergam órgãos, nós enxergamos pessoas. O emergencista não vê apenas um pulmão falhando. Ele vê o idoso frágil, a filha assustada, a história de vida por trás daquele leito. Não vê apenas uma tomografia alterada. Vê um contexto. Não vê apenas um diagnóstico. Vê prioridades.
E é justamente por isso que, às vezes, a melhor conduta é uma trombólise. Outras vezes, é uma intubação. E, em alguns momentos, é uma conversa honesta acompanhada de 2 mg de morfina. Todas essas decisões exigem a mesma coragem. Porque cuidar não é apenas prolongar a vida. Cuidar é oferecer ao paciente aquilo que realmente faz sentido para ele naquele momento.
No final das contas, a Medicina de Emergência não é sobre derrotar a morte. É sobre proteger a vida enquanto ela pode ser protegida. E quando ela não pode mais, é sobre garantir dignidade, conforto e respeito até o último instante.
Se você acredita nisso, você já faz parte do grupo de médicos que eu mais admiro. Os médicos que entram em cada plantão sabendo que não controlarão todos os desfechos. Mas que, ainda assim, se recusam a entregar menos do que o melhor cuidado possível.
Nos vemos no próximo plantão. — Dra. Capi